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  Um espaço para a psicanálise na pedagogia

Juliana Davini

Comecei trabalhando em escolas públicas, onde eu era solicitada a resolver os problemas chamados "afetivos" dos alunos. Num desconhecimento da própria psicanálise, a escola queria tratar as "paixões", ou seja todas as emoções que pudessem interferir na aprendizagem. Como se pudéssemos viver sem elas, robotizados e uniformizados num ideal moral e social. Com este olhar a escola estava cheia de crianças - problema...
Pude perceber dois grandes blocos de problemas. O primeiro e mais vasto deles era e ainda hoje é, composto por crianças e adolescentes que são o sintoma de todo um sistema escolar problemático, que por sua vez refletem a estrutura sócio-política e econômica do nosso país. Ao mexer neste emaranhado pude ver o quanto a escola produzia os problemas dos quais tanto se queixava . O que chamou a minha atenção foi o abandono e a "perdição" do professor. Era ele que praticamente sozinho, tinha em sala inúmeros problemas e mal sabia por onde começar a trabalhá-los.
Era triste observar como as queixas eram comuns e quase as mesmas: desatenção, indisciplina, agressividade e sexualidade afloradas, desinteresse e dificuldades em aprender. Em contrapartida, os professores nem sempre conseguiam oferecer uma aula envolvente, que incluísse os desejos e curiosidades da classe. Não ofereciam um trabalho de grupo onde as interações fossem trabalhadas e as relações grupais desvendadas, deixando muitas vezes de propiciar no aluno o desejo de aprender. O relacionamento com os pais era precário, bem como a adaptação era mal construída. Era difícil lidar com as diferenças de ritmo dos alunos, bem como as diferentes hipóteses em que se encontravam as crianças de uma sala. Ou seja, não concebiam que o heterogêneo fosse fonte de aprendizagem, era sim um problema. Não conheciam os processos pelos quais uma estrutura psíquica é formada, sempre assustados com as fantasias e manifestações da sexualidade da criança (tão presentes nos contos de fadas!). Mais triste ainda foi perceber que eles mesmos, enquanto alunos, tinham alguns dos problemas que viam em seus educandos. Isto porque não estudavam o seu fazer, não refletiam, não buscavam ajudas teóricas...
É claro que este quadro do professor pontuava a situação semelhante do coordenador e do diretor, que não assumiam a formação da equipe de educadores e estavam também perdidos. A maneira tradicional não mais servia, e não sabiam ensinar da maneira nova, o que acabou enchendo as escolas de especialistas, e as clínicas, de filas de espera. A proporção dos encaminhamentos foi tão grande que levou ao questionamento de todos. Os culpados foram buscados nos mais variados lugares, desde a nutrição, até nas faltas do ambiente e dos pais, como foi demonstrado e desmontado pelas pesquisas de Maria Helena Souza Patto.
Ninguém queria ver o óbvio: cabe ao professor ensinar e aprender com seu ato, e o resto da escola deveria existir para apoiá-lo nesta tarefa árdua. Nem uma coisa nem outra estava acontecendo. Neste meio tempo entrei em contato com uma educadora que tentava pontuar essa crise da educação, Madalena Freire, que muito me ajudou a formular a seguinte questão: O que a psicanálise teria a contribuir neste caso? Como ajudar o professor a assumir sua função, buscando conhecimentos que alicercem seu fazer e legitimem a sua res-ponsabilidade, superando a criação de culpados?
Tirando este primeiro bloco, havia outro: o de crianças psicóticas, neuróticas com sintomas escolares, perversas, além daquelas com alguma deficiência. O desafio era o diagnóstico diferencial para proceder um bom encaminhamento, o que não significa a retirada da escola. Outro problema era a desmontagem das classes especiais, buscando a inserção planejada e acompanhada dentro da sala comum e combatendo os rótulos que inviabilizam a aprendizagem escolar. Havia então uma parceria possível da psicanálise com a escola. A questão era como construí-la.
Buscando atuar nos dois blocos encontro-me hoje, constituindo a minha prática. Em primeiro lugar fui buscar teorias que tivessem algo a dizer sobre estes temas. Fui descobrindo também que a discussão da prática dos educadores era fundamental para que o estudo teórico pudesse ser acompanhado na articulação com o fazer, evitando assim novos equívocos. Os temas com os quais trabalho, não podem ser compreendidos sem um trabalho subjetivo de cada aprendiz.
Tais conteúdos antes de chegar no fazer do sujeito, mobilizam uma série de reflexões pessoais. Nestas reflexões pude observar que o saber vem a ocupar um lugar subjetivo movido pelo desejo de cada um. Já vi muitos casos onde o conhecimento foi usado de forma autoritária ou demagógica. Em outros casos trouxe consciência para pessoas, que a partir dela puderam retificar suas posições. Nestes casos o estudo teve um efeito terapêutico, provocando mudanças e implicações. Formular questões acerca da prática pedagógica individual a partir do estudo da psicanálise ajuda o sujeito a buscar soluções criativas, tecidas por ele, em vista dos problemas enfrentados, e a compreender que a forma como ele vive os mesmos problemas é o que os produz ou o que os alimenta.
Este é o espaço que venho criando para a psicanálise na sua articulação com a pedagogia. Tenho encontrado resultados que têm mobilizado meus esforços e me ajudado nos momentos de desânimo. É apostando nos acertos que enfrento os erros deste processo e a paciência deste trabalho de formiga: participar da formação de alguém.


reflexões que convidam a pensar conosco
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12. Diálogos Ressignificados
11. Diálogos Formadores
10. Diálogos Heterogêneos
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