
Projeto: inquietudes
para o devir educativo
Mirian Celeste Martins
Ano novo. Agenda nova identificada com letra caprichada... Novos desafios.
Um ano sempre se inicia com promessas e desejos. E também muitos votos para que tudo que queremos se realize.
E o ano começa com nosso planejamento, interrelacionado com o planejamento de colegas, dos coordenadores, da escola. Frente às nossas tarefas temos de buscar novo fôlego depois de férias distantes do barulho do recreio, da agitação dos alunos, da ação pedagógica conscientemente criada.
Planejar é projetar. "Nossos desejos são projetos traçados sobre o ambiente, primeiro às cegas, logo com interesse e atenção consciente", disse o filósofo americano John Dewey. Desejamos, planejamos, projetamos... Três ações que parecem interligadas na presença constante em nossas vidas. E ganha outro sentido num começo de ano. Nada melhor para iniciar este boletim, o quarto produzido, que já contou sobre nossa história e sobre os meandros da formação de educadores. Neste, abordamos planejamento, com quatro visões que se complementam.
Planejar é projetar, é realizar projetos, como o faz qualquer planejamento que é levado à sério e não aquele que é entregue apenas para a formalização de uma solicitação. Olhar planejamento como projeto é traçar os possíveis, sem "fechar" temas ou atividades, porque num projeto há um vir-a-ser que vai sendo construído junto à sua própria execução.
Considerando os projetos de ação, como tenho denominado, como uma atitude metodológica, fui encontrando uma forma específica. Pensando por imagens, traduzi as diversas maneiras de trabalhar com projetos percebidas pela ação dos educadores, mais do que pelos teóricos, em quatro desenhos, exponho aqui apenas uma imagem-síntese de nossa visão de projeto.
O projeto, embora parta de algo, se abre para cercar um problema e define em seu caminhar a meta onde chegará, como uma espiral. Mas esta estrutura está colocada sobre redes e acompanhada de outras espirais. É esta a forma que melhor traduz o conceito de projeto em que acredito.
A forma da espiral é bastante significativa. O projeto cerca um problema, uma questão, mas percebo que não pode ser direcionada por ela. Há, em algumas maneiras de compreender projeto, uma preocupação muito grande em definir a questão inicial, mas corre-se o risco de se prender a ela. Muitas vezes, entretanto, é em seu caminho que as questões centrais vão ficando mais nítidas. Na espiral o ponto de partida faz parte todo o tempo do caminho, mas como ponto de partida e não necessariamente de chegada. Há outras descobertas possíveis no meio do caminho. Entretanto, na espiral as curvas são harmônicas, não há desvios abruptos. O desvio indicaria a necessidade de abrir nova espiral, com novo ponto de partida, fechando antes o ciclo da espiral iniciada.
A forma da espiral também é signo de movimento, de entrelaçamento. Assim, enlaça as dimensões práticas, intelectuais e emocionais, envolvendo passado, presente e futuro, antecipação, acumulação e consumação. Neste sentido, é um ato estético.
A espiral também indica forte ligação com todo o espaço que o envolve. Está implicado em seu contexto, porque interage com ele. E costura todos os integrantes em sua ação, como um redemoinho. Neste sentido sua ação é mediadora.
A forma de espiral também traduz a idéia de transformação, abertura e crescimento. Traz em si a idéia de inquietude investigativa, impulsionadora do novo, da ousadia, de algo que ainda não é. Neste sentido é um ato de criação.
Na escola há muitos projetos sendo realizados: o projeto pedagógico da escola, o projeto da área dentro do currículo, o projeto com temáticas/conteúdos específicos, o projeto pessoal/pedagógico do educador, os projetos dos alunos, os projetos das famílias, ... Isto forma uma rede de significações que tem planos distintos gerados por cada participante. Nestas redes há pontos comuns que são focos de projetos coletivos. Dentre eles alguns são trabalhados, e um deles se torna, normalmente mais visível, com maior investimento de tempo e de esforço. Um projeto portanto não pode ser visto sem a multiplicidade de seu contexto. Tem em si mesmo uma estrutura globalizadora.
A forma sintetiza a maneira como tenho trabalhado com o projetos. Tendo-a como suporte, pude acompanhar mudanças importantes naqueles que comigo conviviam, porque percebiam a sua prática pedagógica por uma outra perspectiva.
A dinâmica de projetos instiga para a ruptura de tempo, de espaço, para a ressignificação de conteúdos e objetivos, além de propiciar a disponibilidade do educador para lidar com a própria insegurança, com os esquemas de ação mais arraigados, com um olhar mais aberto para acompanhar o percurso de algo que nasce com planejamentos e avaliações constantemente registradas e refletidas. Neste sentido, muito colaboram o exercício dos instrumentos metodológicos de apoio ao educador preconizados por Madalena Freire: a observação, o registro, a reflexão, a avaliação e o planejamento.
Pensar projeto, construído a partir dos resultados que se vai alcançando, sem deixar de perder de vista os objetivos e conteúdos para o qual nasceu, exige um olhar pesquisador, investigador, tanto do educador quanto do coordenador, em busca permanente de qualificação, de aperfeiçoamento.
O projeto, portanto, se configura como uma prática investigativa e mediadora, que incorpora a qualidade estética e se traduz na experiência visível e refletida, avaliada e replanejada constantemente que promove avanços na formação contínua do educador quando acompanhada pelo olhar de outro educador.
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