
Memória: Eterna Idade
Madalena Freire
"A lembrança é libertadora."
Paulo Freire
"A lembrança é o útero da liberdade!"
John O'neill
"Aqueles que ignoram a história são condenados a repeti-la."
Benjamin
Neste últimos oito anos, no acompanhamento do processo de formação do educador no Curso de Formação de Educadores do Espaço Pedagógico e fora dele, venho construindo minha prática num foco que julgo central, no primeiro movimento deste processo, que é o resgate das lembranças da vida de aluno na sua relação com o educador, dentro da história de cada um.
Paulo Freire, inspirado em Dewey, há muito nos assinalava sobre a importância de valorizarmos a socialização por parte de nossos educandos, de suas experiências, de seus saberes, de sua história.
Histórias que entram em cena mediadas por suas lembranças. Tais lembranças necessitam ser faladas, escritas, lidas, assumidas, afirmadas, escutadas, para poderem assim ganhar status de memória, serem lapidadas. Elas nos habitam individualmente, mas seu nascimento, há muito, aconteceu no coletivo. Quando socializadas, podem ser refletidas e criticadas.
Resgatar, salvar do esquecimento alienado, as lembranças de nossa história pedagógica, é entrar em diálogo crítico com nosso passado, ajudando-nos, também, a entendê-lo, superá-lo, esquecê-lo, como ato consciente de quem perdoa. Muito diferente do estado de amnésia que se encontrava anteriormente.
Perceber-se como fazedor de histórias, dono de seu destino pedagógico, profissional e pessoal, é crucial no processo de formação desse sujeito pensante, autor e construtor de conhecimento.
Ver, porque ganhou distância, num processo reflexivo, como construtor e não reprodutor do próprio processo de aprendizagem, possibilita a compreensão entre construir conhecimento e reproduzir conhecimento, repetir história e construir história.
Na minha prática, no acompanhamento do processo de formação de educadores, este momento é, ao mesmo tempo, ruptura inaugural (de uma fenda) entre uma concepção de educação e "batismo", numa outra.
A tomada de consciência do próprio processo de aprendizagem, enquanto educando e educador, suscita um forte impacto tanto no seu aspecto cognitivo, quanto principalmente na sua "inteligência afetiva", como nomeia José Antonio Marina. Muitos, a partir desse momento, ganham fôlego decisivo para assumirem com maior confiança a condução do próprio processo de aprendizagem no seu ensinar com seu grupo.
Outra forte constatação dá-se em relação ao processo de ensino-aprendizagem. Percebem que só aprendemos a partir do que sabemos de nossa experiência, do que nos faz sentido, do que tem significado na nossa história. Pois como, nos diz Marina, "só vemos o que sabemos, só compreendemos o que sabemos, só fazemos o que sabemos, só cremos no que sabemos".
Constatar no resgate de nossas lembranças que só ficou o que tinha sentido e significado, é o "bisturi" para a consciência do que é aprendizagem significativa, do que é construir conhecimento, do que é fazer história.
Outra descoberta é conhecer a si próprio e aos outros, não só como sujeito cognitivo, mas também afetivo. Emocionar-se com as próprias lembranças e com as dos outros, avermelhar e chorar com o reaparecimento do cheiro do lanche, do rosto carrancudo da "Dona Zulmira", do olhar do grupo rindo da sua gagueira, do caminho à escola, da cartilha do zabumba, da tortura da "letra de mão", da beleza da voz generosa da professora diante de um erro. Todos esses instantes de nossas lembranças quando coletivizados nos comprovam que não temos só memória, mas "somos memória", somos autores de nossa história pedagógica e política.
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