
A dimensão estética no reavivar memórias
Mirian Celeste Martins
Olhar nossas próprias histórias é visitar a nós mesmos, em nossas entranhas, pois "somos como tartarugas, carregamos a casa. Essa casa são as lembranças... E o passado se coloca para ajudar a ver e compreender o momento que estamos vivendo". Casa-memória - palavra do artista Iberê Camargo, que convida a um mergulho no presente trazendo as marcas e sulcos que precisam ser ressignificados e expandidos na percepção da memória coletivizada.
Para Dewey, quando há o envolvimento da afetividade, da cognição e da prática cotidiana que provoca uma imersão na experiência, se presentifica uma qualidade estética. É este mergulho que se experimenta quando a imaginação e a percepção criadora são provocadas pela memória. Labirintos espiralados que impulsionam rodopios inebriantes, ora até o fundo de nós mesmos, ora no distanciamento contextualizado de quem se vê com estranhamento.
Buscar nas linguagens artísticas - com palavras, imagens, objetos, sonoridades - as marcas de momentos vividos, é como chuva de verão que atravessa a terra árida e faz nascer flores e ervas, também as daninhas. O olhar se torna distanciado e sensível às sutilezas do contexto, e é capaz de fabricar sentidos, reconstituindo e recriando a realidade, desvelando e ampliando a significação do passado em nossa casa-memória, tempo e templo-espaço estético que instiga a ousadia da criação de novos tempos.
|