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  Movimento: a gênese do conhecimento afetivo e da cognição

Fátima Camargo

O vínculo afetivo é, no momento inicial da existência humana, a porta de acesso que o sujeito dispõe para ingressar no mundo da cultura.
A comunicação da criança com o outro se faz através da emoção, primeiro recurso disponível à promoção das interações indispensáveis à continuidade da vida.
É assim, através das manifestações emocionais, traduzidas nos movimentos corporais produzidos, que a criança contagia o outro e dele recebe os cuidados essenciais dos quais precisa. O vínculo social que se cria inscreve-se antes no campo biológico como uma necessidade absoluta, como condição indispensável à sobrevivência humana.
Num processo gradual de interações, mediado pela linguagem verbal e não verbal utilizadas pelos agentes dessa relação, o conhecimento se produz e amplia ultrapassando os limites do auto conhecimento corporal pela criança, para estar a serviço da constituição de um acervo bem mais amplo de significados.
Através do movimento a criança investiga e conhece o mundo a sua volta. Um mundo físico, de objetos que manipula e experimenta sensorialmente. Um mundo social que lhe oferece os modelos das práticas culturais organizadas por cada grupo humano.
O movimento, expresso nas manifestações emocionais iniciais, inaugura os contatos sociais e esses, ao descortinarem o mundo do conhecimento para a criança, são fundantes da inteligência. O desenvolvimento da inteligência é deflagrado pelo contato com o mundo social e se dará na justa medida de sua interiorização pelo homem. É nesse sentido que afetividade, primariamente entendida como emoção, e cognição, jamais se dissociam. Desenvolvem-se par e passo, no sentido de nutrirem-se reciprocamente, sempre.
O movimento desloca no espaço uma carga afetiva, toda uma gama de sensações emoções e percepções que são comunicadas através do corpo, na tonicidade por ele produzida. Os músculos "falam" do lugar do psiquismo, este povoado por afetos distintos e muitas vezes contraditórios e pelas representações do inconsciente.
Através do movimento a criança explora o ambiente e seus conteúdos, comunica significados, materializa imagens mentais, emoções e afetos, exterioriza e interioriza conteúdos que absorve do seu meio, além de provocar e processar a maturação do sistema nervoso.
Seu corpo "fala" sempre, independentemente da sua vontade e da sua possibilidade de controle. No homem a atividade motora se encontra a serviço da representação e da inteligência. É também através do movimento que o homem pensa.
Um corpo que fala muitas vezes sem produzir sons, que se expressa direto ou por meio de subterfúgios, que grita ou sussurra, através de movimentos rápidos ou vagarosos, precisa ser "lido", com cuidado, com atenção e com respeito pelas formas peculiares através das quais ele produz o seu discurso.


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11. Diálogos Formadores
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