
Bricolage de Pensamentos do Corpo
Gisa Picosque

Sandra Cinto, Sem título (detalhe). 1998. Fotografia 70 x 128 cm.
O que pode o corpo? Corpo é coisa,
é objeto?
"Fecha os olhos e tenta pensar
no teu corpo lá dentro. Sangue, mexeção", diz Hilda Hilst.
Ossos, músculos, nervos, ligamentos,
células, sangue. Visto assim de dentro, virado pelo avesso, o corpo é uma
mexeção interna, uma rede inteligente conectada, interagindo, trocando informações,
crescendo de forma contínua, ininterrupta ... ou atrofiando. O corpo é pensante.
"Quando o apito da fábrica de
tecidos vem ferir os meus ouvidos eu me lembro de você..." (Noel Rosa)
O corpo lembra. As recordações
são sempre reações físicas. Foi nossa pele que não esqueceu, nossos olhos
que não esqueceram. O que escutamos pode ainda ressoar dentro de nós. No
jogo com o biológico, o social e o cultural, o corpo mantém viva a memória
genética, celular, muscular, psíquica, em constante funcionamento sígnico.
"Aos poucos o ciúme foi tomando
forma e transbordando espesso como um licor azul-verde, do tom da pintura
dos seus olhos. "(Lygia Fagundes Telles)
O que ocorre quando experenciamos
uma emoção? O percurso biológico das emoções indica que, ao vivenciá-las,
imagens mentais formam-se, há uma mudança no estado do corpo. O coração
pode acelerar, a pele corar ou empalidecer, a tensão nos músculos aumentar
e um brilho diferente nos olhos aparecer. É que emoção implica ação, movimento,
manifestação corpórea. O corpo gera emoções; material proveniente do seu
sistema límbico que trazem ao corpo cores, temperaturas e sensações determinadas.
"Lá vem a baiana / Coberta de
contas, pisando nas pontas / Dizendo que eu sou o seu ioiô... "(Caymmi)
Corpo-mídia. Para Harry Pross,
o corpo é a primeira mídia do homem, mídia primária. Comunicamos uns com
os outros articulando e lendo gestos, atitudes, movimento e deslocamento
no espaço. E, para acentuar ou ampliar essa capacidade comunicativa do corpo,
inventamos, criamos diferentes aparatos como as pinturas corporais, as roupas,
os adereços.
"O Corpo dá forma ao ser. Ser
alguém da trabalho. Trabalho para alimentar. Alimentar o corpo e a alma.
Corpo e alma geram idéias. Idéias estimulam o conhecimento. Conhecimento
tem ligação direta com o crescimento. Crescimento acontece quando se quer?"
É assim que começa um belo texto
sobre o corpo escrito por Ludmilla, minha filha, para uma disciplina do
curso Comunicação e Artes do Corpo, na PUC/SP. Nos seus 20 anos, mapea pensamentos
do corpo, aflorando idéias das palavras que puxam outras palavras. Lendo
as frases com vagar, vê-se as relações tramadas entre corpo / conhecimento
/ crescimento.
Assim, o que pode o corpo?
Alinhavando esses pensamentos do
corpo, já disse o filósofo Merleau-Ponty: "Nosso corpo é comparável a
uma obra de arte. Ele é um nó de significações vivas".
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