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  A produção do registro do educador: decifrando sinais

Edmilson de Castro

Todo sistema educacional assenta-se sobre uma base sócio cultural cujo ritmo e modificações são ditados pelos solavancos gerados na maneira como a História vai sendo engendrada ao longo dos tempos.
Dependendo do ritmo e da abrangência, os fenômenos históricos tendem a provocar maiores ou menores abalos nas instituições sociais e em seus agentes, provocando, muitas vezes, desestabilizações e incertezas, pessoais e profissionais.
É nesse cenário de instabilidade sócio-cultural, decorrente de profundas alterações no campo da economia, cultura e tecnologia, que se inscreve a escola contemporânea.
A escola que conhecemos é, contudo, herdeira, em sua estrutura e princípios, de valores e conceitos oriundos da modernidade européia, cujo ideário básico circunscreve-se no universo racionalizador, supostamente capaz de dar lógica e sentido a todas as ações humanas, no plano das instituições, da vida privada e afetiva. Essa visão, entretanto, revelou-se insuficiente às necessidades do nosso tempo.
Racionalizar e dar sentido aos acontecimentos que forjam o cotidiano exprimem também um desejo pelo controle e pelo poder em determinar o rumo dos fenômenos produzidos pelo indivíduo em certas condições de tempo e espaço.
A escola contemporânea vive, nesse sentido, uma crise de identidade, afetada que está pelo rompimento dos paradigmas modernos que a instituíram e busca, com sofreguidão, compreender e controlar as mudanças que a atingem, na tentativa de criar uma nova identidade.
Esse desejo de enquadramento dos acontecimentos que a atingem não é fácil de ser satisfeito. A dispersão, velocidade e aleatoriedade das mudanças no campo escolar são de tal magnitude que o educador se vê atirado para o interior de uma galáxia constituída de fragmentos aparentemente desconexos..
Afim de dar ordem a esse aparente "caos", que interfere no campo pedagógico, epistemológico e procedimental, as escolas, cada vez com mais freqüência e rigor, deverão construir nos espaços destinados à formação de um profissional reflexivo, o desenvolvimento de uma metodologia de registro e de textualidade que supere a funcionalidade burocrática que caracteriza o trabalho escrito dos educadores hoje.
A produção escrita do educador hoje deve estar a serviço da identificação e compreensão de todos os movimentos que interferem nas relações de ensino e aprendizagem.
Para tanto deve ser estimulado a desenvolver uma escrita permanentemente informada e aguçada por referenciais teóricos que o ajude a criar um cenário explicativo dos fatos cotidianos do qual faz parte, permitindo-lhe neles intervir com maior clareza e precisão.
Para que seja possível essa conquista, o educador deverá superar sua condição de reprodutor de saberes para ser um investigador em ação, aquele que enquanto exerce seu ofício cria seus saberes e, através da própria escrita vai, artesanalmente, lapidando sua subjetividade.
Desenvolver uma metodologia do registro pressupõe, contudo, reeducação do olhar do educador e, consequentemente, de suas interpretações acerca dos fatos escolares.
Via de regra a leitura e o registro que o educador tem da escola e suas particularidades, caracterizam-se pelo apego aos estereótipos convencionais que marcam a instituição desde o nascimento da modernidade. Ao proceder dessa maneira o educador vê o todo mas não o faz em função das partes, relegando ao plano secundário dados relevantes para a compreensão da sua própria prática e dos rituais escolares, dos quais faz parte e ajuda a construir.
Uma metodologia do registro aplicada à prática educativa deve, portanto, estar atenta, para além do conjunto dos fenômenos escolares, aos seus pormenores. Ou seja, o olhar e o registro do educador deverá guiar-se mais pelos indícios e pistas que a realidade plástica da instituição escolar cria cotidianamente do que pelos paradigmas sacramentados que a esculpem mediante modelos imobilizadores e a-históricos.
Segundo Carlo Ginzburg "o caçador teria sido o primeiro a narrar uma história porque era o único capaz de ler, nas pistas mudas (senão imperceptíveis) deixadas pela presa, uma série corrente de eventos."
É possível traçar um paralelo entre o educador que faz de seu ofício um ato investigativo e o caçador mencionado por Ginzburg. Ambos devem aprender a registrar os sinais deixados pela natureza animal e social para melhor compreender seus significados e exigências, de modo a obterem êxito através de suas decisões e encaminhamentos.
Nesse sentido só consegue identificar e registrar os "dados marginais considerados relevantes" os educadores que conseguirem fazer do registro um "habitus", inserindo-o em sua rotina de trabalho, direcionando-o aquilo que é, dentre todos os acontecimentos escolares, considerado insignificante.
Registro é leitura e decifração. São metáforas criadas para dar uma ordem provisória à falta de sentido dos movimentos históricos e sociais, dos quais a escola, seus alunos e professores são parte.
Compete à escola, neste momento de transição identitária, priorizar em seu projeto pedagógico e seu processo de formação de profissionais reflexivos, procurar construir uma metodologia de registro capaz de traçar um mapa dos diversos fragmentos que a constituem. Através desse registro poderá, com o tempo, construir um educador apto a perceber e dar sentido às irregularidades do seu cotidiano.
Sem que isso ocorra, a escola e o trabalho nela desenvolvido serão prisioneiros da eterna casualidade, desprovida de formas e objetivos.


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11. Diálogos Formadores
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