
Olhar inquieto: desafios e descobertas na construção da síntese estética
Mirian Celeste Martins

Venha as virgens em cardumes Arthur Bispo do Rosário, sem data.
Escrever e ler imagens, gestos e sons? Linguagem não verbal? Adivinhar ou decifrar?
Tudo se desestabiliza quando a percepção e a imaginação criadora entram no jogo de contar a história de um encontro, de pinçar os conteúdos trabalhados, de encontrar metáforas que expressem sensações, idéias e sentimentos vividos. A síntese estética, como instrumento metodológico que registra um encontro de trabalho, mexe e remexe com o fazer de cada um, esquecidos que estamos do que é falar por outras linguagens. Tudo isso gera rebuliço interno, mal-estar, calor ou frio, palpitações, dor de cabeça, distanciamento, inquietações - termômetro de processo de aprendizagem onde o novo desestabiliza o velho.
Em nossa vida de aluno, em nossa vida de sujeito que pensa através de símbolos, nos utilizamos da palavra como matriz-mãe do pensamento. Sempre, ou quase sempre. É a palavra, é a convenção da escrita e da leitura, é a estrutura informativa de um texto verbal. "Um pensamento pode ser comparado a uma nuvem descarregando uma chuva de palavras", diz Vygotsky. A palavra é nosso referencial mais forte, sedimenta nossos caminhos de estudo, de apreensão e apropriação de mundo.
Mas, como pensamos também com imagens, podemos expressá-lo através de cores, formas, figuras, suportes variados, sons, gestos, etc. Um pensamento também pode ser comparado a uma nuvem descarregando uma chuva de imagens, sonoridades, gestualidades, onde as cores e formas, o tato e o olfato, o figurativo e o abstrato, os materiais e os suportes, os sinais e as palavras, os ritmos e as entonações, as escolhas, as proporções, as ênfases são produtoras de sentido.
No jogo do criar e no jogo de ler a síntese estética de outro, o grupo se mexe e se remexe, envolvido na busca de significações. Decifra para além da adivinhação, olha para além do "externo" da síntese ou da ação que ela registra, indo por trás das aparências, das formas significantes, para encontrar possíveis significados cognitivos, afetivos, grupais, culturais, ou puramente estéticos. Por um lado o grupo ousa levantar hipóteses, analisar, intuir, por outro, o criador exercita o seu ouvir interpretações e percebe o que suas escolhas evidenciam, o que lhe foge da intencionalidade das mãos. Ao "falar" ao outro nos organizamos internamente, porque os signos - de qualquer natureza - mediam o nosso pensamento e nosso sentimento. Assim, na viagem do mundo interno para o externo e deste para aquele, uma alfândega decodificadora lê e interpreta signos, sejam eles ícones, índices ou símbolos.
Se a síntese verbal e estética tem o mesmo porquê, o seu como é singular, pois se estruturam em duas espécies de códigos diferentes, cada qual com suas regras, suas potencialidades e especificidades de leitura, com suas vantagens e desvantagens, facilidades e dificuldades, com elementos que explicitam e outros que camuflam de formas diferenciadas. Há um cuidado especial para que a leitura não reduza certas escolhas estéticas à significações fechadas ou traduções literais e assim reaprende-se a ler por outros códigos.
Amarrados em nossa vida de aluno, desejamos o homogêneo, o igual, para fazer o certo, o correto, e "fazer bonito". Na busca da igualdade perdemos de vista as potencialidades do diferente, do heterogêneo, da especificidade da marca pessoal de cada um, comunicadas através da linguagem verbal e não-verbal. Será no exercício continuado do fazer, do ler, acompanhado pela interação do grupo planejada pelo educador, que seremos impulsionados para pensar com mais profundidade e sensibilidade. Talvez compreendamos porque "uma lata existe para conter algo, mas quando o poeta diz: lata, pode estar querendo dizer o incontível..."
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