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  Família e escola: o caos institucional e a crise da modernidade

Edmilson de Castro

"Não encontrei no edifício do pensamento nenhuma categoria sobre a qual descansar a minha cabeça. Em compensação, que travesseiro o caos."


Este aforismo repleto de ironia e amargura, de autoria do filósofo romeno Emile Cioran, poderá representar, com certeza, o cenário de perplexidade que se delineia nas instituições escolares nas últimas décadas.
Tal perplexidade provém da falta de referenciais claros quanto ao papel que a escola deve assumir em uma sociedade em permanente mudança e, em conformidade a isto, que sentido deve assumir a prática docente, quando a própria produção e veiculação do conhecimento, assumem formas cada vez mais fragmentáveis e, muitas vezes, dissociadas de qualquer significação ética, social e cultural.
Assistimos hoje, com certo horror, ao aprofundamento da desagregação social, que impede a constituição de qualquer consenso sobre os princípios e valores que deveriam reger as relações entre os sujeitos e instituições sociais, dificultando a definição de qual deve ser e como deve ser forjado nosso projeto de escola e sociedade.
O tipo de escola e conhecimento que se funda com o capitalismo, legitima-se em um modelo de arquitetura social voltada à satisfação dos direitos intelectuais de uma elite econômica, amparada em sólida composição familiar que, a princípio, pode fornecer o lastro moral, ético e civilizacional, necessários ao bom desempenho de todos aqueles que a freqüentam. Hoje, contudo, a situação é outra. A sociedade pós-industrial alterou, significa-tivamente, sua maneira de operar e produzir mercadorias, conhecimentos e valores, afetando diretamente a escola, afetando seus eixos paradigmáticos, tanto no que se refere à sua organização funcional, curricular e metodológica, quanto aos princípios éticos e participativos que sustentam sua prática cotidiana.
Este panorama dificulta a definição de rumos, a fim de que se possa determinar as metas a serem atingidas pela escola no campo dos saberes mas, também, no campo da participação dos diversos segmentos que a compõem , principalmente dos pais.
Parte desta problemática pode ser creditada àquilo que o professor Jose M. Esteve definiu com a "ruptura do consenso social sobre a educação." Para ele, a sociedade havia construído um certo consenso sobre que valores deveriam ser transmitidos através da educação. porém, nos últimos anos, a realidade mudou. Atravessamos, no momento, uma autêntica socialização divergente: por um lado, vivemos numa sociedade pluralista, em que grupos sociais distintos defendem modelos de educação opostos, em que se dá prioridade a valores diferentes e até contraditórios. Ou seja, a unidade racionalista representada por um modelo unitário de escola está em crise, em função da ascensão de um paradigma educacional que não pode mais colocar para debaixo do tapete, a diversidade sócio-cultural como elemento central dos conflitos que marcam a escola nos dias de hoje.
Toda esta movimentação no plano social produz rupturas na forma como, historicamente, algumas instituições se organizam para gerar conhecimento, condicionar hábitos e impor comportamento. Destas, as mais afetadas foram, com certeza, a família e a escola.
Não é por outra razão que hoje, essas duas instituições se vêem compelidas a uma aproximação que, até a alguns anos atrás, não seria possível ou mesmo desejável.
Tradicionalmente a escola olhou a família com certa desconfiança e, quando não teve alternativa, apenas suportou a participação dos pais na condição de ouvintes comportados dos relatos, por ela produzidos, acerca da trajetória disciplinar e pedagógico dos alunos. Raramente essa participação superou os limites de ação beneficente, envolvendo-se com a parte organizacional do projeto curricular da escola.
Para a escola, a família foi e é, o locus de construção de moralidade, base indispensável para a garantia do projeto moralizador e civilizacional representado pela escola. De seu lado, a família fez da escola, sobretudo na etapa que antecedeu a massificação do processo institucional, uma instituição a serviço da monopolização do capital cultural nas mãos de uma elite econômica reproduzindo, no plano educativo, as desigualdades do campo social. Assistimos hoje, porém, a uma reviravolta neste cenário decorrente da crise dos modelos forjados pela modernidade.
O modelo de família nuclear predominante até meados da década de 50 esfacelou-se, dando lugar a novas formas de representação e organização parental com reflexos diretos no que concerne as relações entre pais e filhos. Cresceu, vertiginosamente, o número de separações entre casais, o que tem provocado a perda de referências ético-morais para uma parte significativa de jovens e crianças.
Além disso, a crescente presença da mulher no mercado de trabalho e sua maior independência da representação de mulher voltada à vida doméstica e à educação da prole, resultou em certo abandono para com o desenvolvimento afetivo, social e educacional das novas gerações. Para completar este cenário, as mudanças tecnológicas que prometiam uma maior disponibilidade de tempo para que os indivíduos se dedicassem a si mesmos e aos outros, revelaram-se falsas. O trabalho e a velocidade cotidiana só fizeram afastar as pessoas do convívio comunitário, isolando-as, cada vez mais e, consequentemente, descompromissando-as das responsabi-lidades públicas, dentre as quais, destaca-se a formação da juventude.
Sobrou para a escola a responsabilidade de pôr ordem neste caos. E como não lhe é possível reorganizar o quadro familiar, resta-lhe abrir mais portas para tentar uma parceria educativa com os pais, de modo que possa instituir uma nova estabilidade, que traga de volta, à escola, a legitimidade que a crise da modernidade lhe retirou.
É cedo, contudo, para avaliarmos em que este movimento resultará. O certo, porém, é que estamos fazendo parte de uma nova etapa nas relações escola/família, onde os papéis serão reconstituídos sob novas bases éticas, políticas e culturais.
Quem sabe, depois disso, o travesseiro que acomoda a cabeça de pais e educadores, não seja mais o caos.


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