
Escola e família: singularidades e história
Fátima Camargo
Historicamente, a escola e a família, tal qual as conhecemos hoje, são instituições que surgem, simultaneamente, com o advento da Modernidade, ambas destinadas ao cuidado e educação das crianças e jovens. Na verdade, à escola coube a função de educar a juventude na medida em que o tempo e a competência da família eram considerados escassos para o cumprimento de tal tarefa. Os saberes diversos e especializados necessários à formação das novas gerações demandavam, cada vez mais intensamente ao longo do tempo, um espaço próprio dedicado ao trabalho de apresentação e sistematização de conhecimentos dessa natureza, diferente portanto daquele organizado pela família.
A escola como instituição distinta da família, no Brasil, construiu-se aos poucos, às custas das pressões científicas e dos costumes característicos de uma vida mais urbana que, há aproximadamente dois séculos, sinalizaram para a necessidade de uma organização voltada à formação física, moral e mental dos indivíduos, missão essa impossível para o âmbito doméstico. Esse modelo esteve à serviço, sobretudo durante o século XIX, da moldagem das elites intelectuais nacionais. A escola diferia profundamente da família e oferecia à formação das crianças e dos jovens uma educação da qual nenhuma outra instituição poderia se ocupar.
Os primórdios da República, na onda dos movimentos sociais, políticos e culturais que marcaram a época, impuseram a necessidade de modernizar a sociedade e colocar a Nação nos trilhos do crescimento, exigindo então um outro modelo e uma maior abrangência da ação educacional. Volta-se então a escola aos pobres, aos imigrantes e às mulheres.
Embora guardadas e bem delimitadas as diferenças entre casa e escola, passou-se a buscar mais o apoio daquela, entendendo-se a eficácia da ação normalizadora da escola sobre crianças e jovens se e quando respaldadas pelo conhecimento e aquiescência da família sobre a mesma. A despeito disso, reservava-se a escola, como sempre o fez, os direitos sobre o conhecimento científico acerca das áreas disciplinares, como também sobre aqueles que diziam respeito aos processos de aprendizagem das crianças e adolescentes, conhecimentos estes informados pela biologia, psicologia e ciências sociais preservando a escola, desta forma, seu lugar de autoridade no gerenciamento das questões pedagógico educacionais.
Hoje vivemos um outro tempo, bem mais complexo, diverso e inquietante do que há algumas décadas. A escola enfrenta, além do desafio frente ao domínio do conhecimento, em permanente e veloz mudança, também o desafio da relação com seus alunos, sejam eles crianças pequenas ou jovens. As questões disciplinares despontam como um problema para um número relevante de instituições de ensino.
Sem dúvida esse contexto é perpassado por questões de diferentes natureza, entre as quais encontramos os dilemas do desenho curricular a ser proposto na contempora-neidade, os impasses em vista da escolha dos encaminhamentos metodológicos mais ade-quados às relações de ensino, os limites e possibilidades da manutenção de uma relação professor aluno com qualidade e também, sem qualquer dúvida, reencontramos a família, considerada peça chave nesse momento de crise.
A escola não deu conta da tarefa de formar a juventude e hoje compõe o coro, engrossado por outros agentes sociais, que clama pela recuperação da autoridade no meio familiar, sem a qual intui-se, mais ainda, afirma-se que nada poderá ser feito. Culpa-se hoje a família pelas mazelas impostas pela violência, pela indisciplina e pelo sentimento de desrespeito que ronda jovens e crianças, considerando-a demissionária do papel de gerar e gerir os valores indispensáveis à construção da vida social.
Chamar a família às suas responsabilidades morais e formadoras não exclui, no entanto, pensar com rigorosidade no papel a ser desempenhado pela escola. Uma vez que questões de diferentes natureza e procedência, sejam elas individuais, comunitárias ou sociais mais amplas, ultrapassam os portões e adentram no espaço da escola, tornam-se irreversivelmente questões pedagógico educacionais, apesar da dificuldade dos educadores em aceita-las.
Ao lado da família, a escola permanece sendo um espaço de formação que deve, para tanto, repensar a sua ação formadora, preocupando-se em formar seus educadores para que os mesmos reúnam recursos que os permitam lidar com os conflitos inerentes ao cotidiano escolar.
Ë portanto na escola, refletindo sobre o que há para ser ensinado às crianças e adolescentes e sobre a metodologia que pode tornar mais coesa a ação do conjunto docente, que a escola poderá encontrar saídas legítimas à superação dos problemas morais e éticos que assolam o seu dia-a-dia.
Nesse sentido, sem abdicar do lugar reservado ao ensino formal e da necessidade de mante-lo sempre na pauta da troca e estudo do grupo, é preciso que os espaços destinados à formação dos educadores no interior da escola dêem também prioridade à reflexão político filosófica sobre os sentidos e possibilidades da ação educacional para que se possa, desta feita, recuperar ou constituir um novo ideário para a escola.
|