
Os interesses em jogo na relação família-escola
Juliana Davini
Qual a relação dos interesses da família e das escolas ?
Para a família o ensino é tanto melhor quanto mais individualizado for para seu filho, quanto mais puder ajuda-lo a se destacar, a se desenvolver em todas as suas potencialidades, a ser feliz e como produto final, espera a sua entrada na Universidade ou um bom emprego. As preocupações transitam portanto no âmbito do privado. A escola particular, mais identificada com as preocupações de sua clientela, vai desenvolver ações, que enfoquem uma maior individualização do ensino, porém ambas escolas, a pública e a particular, têm preocupações que ultrapassam o âmbito privado : não querem colocar apenas um aluno na universidade, querem lutar por todos os seus alunos, pois quanto maior for o número de alunos colocados, mais se destacarão como instituição.
Este enfoque mais social do que individual, carrega objetivos éticos, pois a escola deve ser um espaço de valorização tanto da informação, como da formação de seus alunos, dentro de uma vida de grupo. A escola como instituição busca através de seu ensino, que seus alunos possam assumir a responsabilidade por este mundo, como diz H.Arendt,o que ultrapassa os desejos individuais e esta responsabilidade só poderá advir, através do enlaçamento entre conhecimento, e ação, entre o saber e as atitudes, entre os interesses individuais e sociais. A escola , como um novo modelo, irá ampliar o mundo dos alunos, convidando-os a olhar suas experiências com uma outra lente, que não a familiar, o que alterará os significados já conhecidos.
A escola pública tem mais fortemente, então , a responsabilidade da apresentação de conceitos e conteúdos herdados de nossa cultura, pois muitas crianças só terão acesso a esta herança, através de sua passagem pela escola, que deve então, abrir caminhos de acesso à cultura de maneira igualitária para todos e neste sentido, lutar contra os privilégios de uma classe social. Todo educador enquanto mediador do vínculo entre aluno e a cultura, entre a escola e a família, está mergulhados e comprometidos nesta rede de interesses dos dominantes e dos dominados.
Existem escolas que trabalham visivelmente mais atadas ao objetivo de reprodução dos valores e ideologias dominantes, outras que tem uma posição mais crítica, mas todas assumem posições políticas, pois a escolha dos conteúdos a serem ensinados, o estilo e o método deste ensino, suas regras, sua maneira de avaliar, de receber a família, e etc., traduzem os objetivos das instituições, deixando claras as opções e desvelando seus interesses mais específicos.
Os interesses das famílias, por sua vez, foram acolhidos mais fortemente na escola brasileira, na década de 60/70, através do movimento de renovação pedagógica, que abriu uma grande brecha para a entrada de um olhar mais psicológico no âmbito escolar, ampliando a atenção com cada criança, suas escolhas e desejos, seu tempo de aprender, e etc.
Enfrentamos porém, conflitos decorrentes da situação vivida: passamos de um valor centrado no conteúdo e no educador, para um valor centrado na criança e em seu processo de aprender . O desafio das escolas hoje é sair dos extremos, buscando valorizar tanto a informação, como a formação, tanto o educador como o educando, tanto o método como os conhecimentos acumulados historicamente ,resgatando ainda, a importância do grupo na construção de conceitos e valores. Enquanto não vencem estes paradoxos, as escolas atravessam ainda, um período de crise de identidade, onde são de tempos em tempos, invadidas por modismos, que se tornam imperativos, como ser "construtivista", por exemplo. Recebem também, tendências internacionais, adotando suas perspectivas sem a devida distância reflexiva, sem contextualização, gerando ações sem sentido, como por exemplo passar a trabalhar só com projetos, ou o tempo todo, interdisciplinarmente. Na escola pública a situação é mais complexa, pois estas tendências e modismos, são mais jogados e conseqüentemente pior compreendidos : os educadores são "convidados" a mudar da noite para o dia. As políticas públicas pouco têm conseguido fazer pela formação de educadores reflexivos e boa parte das vezes acaba jogando contra , sendo ela também impedida por seus próprios mecanismos burocráticos.
A família acompanha e reage a todo este movimento, estando porém, pouco consciente. Vai participar, opinar, reclamar, quando esta crise chega mais claramente em seus interesses. Não se dá conta, no entanto, da sua parcela na produção dos problemas dos quais se queixa, nem de sua dimensão. Seria necessário então, clarear as responsabilidades, sem esquecer que o trabalho com os jovens é em muitos aspectos de parceria. É função da escola, fazer um trabalho de pais que propicie a discussão dos interesses coincidentes, bem como dos conflitantes. Assim, tanto a escola como a família , poderão verificar seu papel no enfrentamento da crise que envolve a todos, ampliando as preocupações e princípios, que possam unir em alguns pontos, duas instituições tão complexas.
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